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Renove os hábitos, renove as energias

Acordo entre governo gaúcho e Ocean Winds abre caminho para geração eólica offshore no Estado

Um marco para o futuro da energia eólica offshore (nas águas) no Rio Grande do Sul é como pode ser considerada a assinatura do memorando de entendimento entre o governo do Estado e a empresa Ocean Winds (joint-venture formada pelas companhias EDP Renováveis e Engie, cada uma com 50% de participação). O acerto, que prevê o apoio entre as partes para a promoção de ações nessa área, foi celebrado em cerimônia realizada em 17 de junho, no Palácio Piratini.

Na ocasião, o gerente de desenvolvimento de negócios da Ocean Winds, José Partida, detalhou dois projetos da empresa a serem efetuados na costa gaúcha e que iniciaram os processos de licenciamentos ambientais no Ibama entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021. O complexo Ventos do Sul é dimensionado para uma potência de 6.507 MW e o Tramandaí Offshore para 702 MW. Os 7,2 mil MW das duas iniciativas significam quatro vezes mais do que a potência eólica onshore (em terra) hoje disponibilizada no Rio Grande do Sul. Somadas, as iniciativas da Ocean Winds representam de R$ 100 bilhões a R$ 120 bilhões em investimentos para uma geração de energia de 31 TW/ano.
Ainda é esperada a criação de 10 mil a 14 mil empregos diretos, indiretos e induzidos durante a construção dos parques e mais 4 mil a 5,5 mil postos de trabalho na operação. As estruturas serão implementadas entre a área dos municípios de Tramandaí e Mostardas e Partida adianta que o porto de Rio Grande será aproveitado para a logística de pessoal e materiais. O gerente de desenvolvimento de negócios da Ocean Winds estima que os parques gaúchos poderão estar operando dentro de sete a dez anos.
Entre as principais condições do acordo de colaboração firmado pelo governo do Rio Grande do Sul e pela companhia, Partida cita a identificação de oportunidades e eventuais lacunas ou entraves regulatórios e fiscais que podem afetar os empreendimentos, além do levantamento de possíveis parceiros tecnológicos ou econômicos. A empresa tem em carteira 11,2 mil MW eólicos offshore em projetos distribuídos por sete nações (Estados Unidos, Portugal, Bélgica, Polônia, França, Reino Unido e Coreia do Sul) que já possuem os direitos do uso de área. Desse total, 1,5 mil MW estão operacionais. As metas da Ocean Winds para 2025 é ter de 5 mil a 7 mil MW em construção/operação e mais 5 mil a 10 mil MW em desenvolvimento avançado.
Partida reforça que a joint-venture tem abrangência global e é formada por duas companhias que estão entre as maiores no campo eólico. Ele lembra que a Engie, uma multinacional francesa, está atuando no Brasil há mais de 25 anos, sendo a maior produtora privada de energia do País. Já a EDP Renováveis (que tem sede em Madri, na Espanha, e é uma subsidiária do grupo Energias de Portugal - EDP) também opera há mais de duas décadas e meia no território nacional. A empresa é a quarta maior produtora privada de energia eólica no mundo e uma das líderes no mercado brasileiro onshore dessa fonte (com cerca de 1,3 mil MW em construção e em operação, um desses parques localizado em Tramandaí). “A Ocean Winds é uma companhia de desenvolvimento, construção e operação da Engie e da EDP Renováveis exclusiva para fazer eólica offshore, em todo o mundo, criada em 2020”, detalha Partida. Porém, as duas sócias já faziam parcerias nessa área desde 2014.
Quanto às energias alternativas, o governador gaúcho Ranolfo Vieira Júnior, durante a solenidade com a Ocean Winds, frisou que os objetivos do desenvolvimento sustentável, traçados pela Organização das Nações Unidas (ONU), buscam a redução da utilização dos combustíveis fósseis em todo o planeta. “E o Rio Grande do Sul tem um enorme potencial para a geração de energia elétrica a partir de fontes renováveis, com destaque para a tecnologia eólica”, enfatiza o governador.
Vieira Júnior cita que o Estado possui capacidade para gerar até 100 mil MW eólicos em terra (até 100 metros de altura) e mais 114 mil MW em superfícies líquidas (no mar e lagoas), onde os aerogeradores são beneficiados por não enfrentarem barreiras que sejam obstáculos ao vento. “Somadas essas duas capacidades, produzimos hoje apenas 5% do total da energia proporcionada pelos ventos, ou seja, é uma área em que há muita possibilidade de crescimento e por isso a importância do memorando assinado”, reitera o governador. Ele acrescenta que o acordo é um passo inicial, entretanto fundamental.
Contando com os projetos da Ocean Winds, que instituiu no País a companhia OW Brasil (anteriormente denominada Ventos do Atlântico) para levar adiante seus empreendimentos, até abril o Rio Grande do Sul registrava 17 iniciativas eólicas offshore tramitando no Ibama, que totalizavam uma capacidade instalada de 44.719 MW. Já o Brasil como todo registrava 55 empreendimentos que representavam uma potência de 133.333 MW.

Envergadura dos projetos e dos investidores é diferencial das iniciativas

“O evento é de uma magnitude fantástica para o Rio Grande do Sul e para o Brasil” salienta a diretora de Operações e Sustentabilidade do Sindicato da Indústria de Energias Renováveis do Rio Grande do Sul (Sindienergia-RS), Daniela Cardeal, sobre o memorando assinado entre Ocean Winds e o governo gaúcho. Ela recorda que o Estado, através da Casa Civil, já celebrou outros acordos no segmento das energias renováveis, mas o firmado com a Ocean Winds se destaca tanto pelo porte dos projetos como pelo tamanho das empresas envolvidas.
Daniela antecipa que a companhia deverá introduzir no Rio Grande do Sul uma tecnologia eólica offshore até agora inédita no Estado e a vinda da companhia pode também abrir a porta para futuros empreendimentos ligados ao hidrogênio verde. Sobre a diferença de custos em projetos elaborados em terra e no alto mar, a diretora do Sindienergia-RS argumenta que os valores envolvidos com os projetos onshore aumentaram e os empreendimentos offshore têm sido foco de investimentos de diversas empresas internacionais, o que justifica o interesse pela geração de energia nas superfícies líquidas.
Em relação à questão da regulação para esses novos parques se instalarem no Brasil, Daniela acredita que já no próximo ano essa situação ficará mais madura. A integrante do Sindienergia-RS, que participou de missão na Europa capitaneada pela Fiergs entre o final de maio e começo de junho, onde foi possível acompanhar de perto usinas eólicas offshore operando, enfatiza que a atividade é possível de ser conciliada com outras, como a pesqueira, assim como traz benefícios econômicos para as comunidades locais em seu entorno.
O presidente do Sindienergia-RS, Guilherme Sari, também destaca a relevância do memorando firmado e o que significam os projetos para o Estado. “É um investimento de muito peso, se formos falar de uma só empresa”, ressalta o dirigente. Outro ponto assinalado por Sari é a importância de a iniciativa ser conduzida por uma companhia como a Ocean Winds, formada por duas sólidas empresas, como a Engie e a EDP Renováveis. O presidente do Sindienergia-RS comenta que o setor tem projetado para o começo da próxima década o início das primeiras operações de usinas eólicas offshore na costa brasileira.
Ele antecipa que para isso acontecer é preciso resolver qualquer dúvida regulatória para a constituição de um ambiente de investimentos nessa área, mas frisa que muitos grandes players, inclusive que participam atualmente do setor de óleo e gás, deverão alavancar os empreendimentos eólicos offshore. Sari acredita que a confirmação da venda da energia dos parques em alto mar se dará através da realização de leilões voltados exclusivamente para esse tipo de geração.
“Não vai ser uma questão de subsídios, não vai ser uma questão de Proinfa (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica) de fato, mas será de um certame específico”, prevê. Ele salienta que o segmento eólico offshore envolve custos agregados maiores, que devem baixar ao longo do tempo com o desenvolvimento dessa indústria.
Por sua vez, durante a solenidade com a Ocean Winds, o secretário-chefe da Casa Civil, Artur Lemos, ressaltou o potencial da geração de energia eólica offshore no Brasil, que é de 480 mil MW em bases fixas e 748 mil MW em flutuantes. Ele frisou ainda o histórico relevante que o Estado possui com a energia eólica onshore. Ele lembra que o Rio Grande do Sul começou a perder espaço nessa área, principalmente, devido a restrições no sistema de transmissão enfrentadas há alguns anos.
“Recordo quando era secretário de Minas e Energia, o desafio que nós tivemos, e por isso que há uma relação muito próxima ao Sindienergia-RS, em desenvolver e executar aquelas linhas de transmissão que na época eram de responsabilidade da estatal federal Eletrosul”, comenta Lemos. Ele acrescenta que se conseguiu que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) colocasse novamente em leilão os empreendimentos que precisavam ser feitos, acabando com as limitações do sistema gaúcho de transmissão.
O secretário adianta que agora outra discussão que está sendo feita pelo Estado com o órgão regulador é sobre o sinal locacional. Lemos diz que buscará o apoio dos congressistas gaúchos para que essa proposta seja adotada dentro do modelo do setor elétrico. “Isso vai fazer com que o Rio Grande do Sul volte a ter condições de competir de igual para igual, porque vento nós temos, com os estados do Nordeste” sustenta o secretário. Ele detalha que o sinal locacional considera os gastos de transmissão da energia que é gerada muito longe dos centros de carga. “Esse custo não é passado no momento do leilão. É um custo implícito que o consumidor paga, e ninguém está se debruçando nisso”, alerta Lemos.

 

Texto: Sindienergia-RS