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Renove os hábitos, renove as energias

Cresce interesse pelas bioenergias no Rio Grande do Sul

A necessidade de o mundo focar em uma transição para as energias sustentáveis, como destacado na recentemente realizada 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), faz com que os olhos se voltem para as bioenergias. Os gaúchos não são exceção a essa temática e começam a perceber cada vez mais projetos sendo desenvolvidos nessa área aproveitando materiais como casca de arroz, cavacos de madeira, biogás e resíduos sólidos urbanos (RSU).
A Biotérmica Energia, por exemplo, foi a primeira termelétrica a biogás de aterro sanitário do Estado (inaugurada em 2015), construída na cidade de Minas do Leão. A usina utiliza como combustível resíduo doméstico depositado em aterro sanitário operado pela Companhia Riograndense de Valorização de Resíduos (CRVR), empresa do Grupo Solví.
O superintendente técnico da CRVR/Biotérmica, Rafael Salamoni, adianta que há planos para aumentar a capacidade dessa planta, assim como para implementar mais usinas dessa natureza em outros municípios. A térmica em Minas do Leão gera 8,55 MWh (o que possibilitaria atender a cerca de 25 mil residências) e tem potencial para atingir 15 MWh de energia limpa. Também estão previstos projetos a serem desenvolvidos em Santa Maria (1 MWh), Victor Graeff (2 MWh), Giruá (1 MWh) e São Leopoldo (4 MWh). Todas essas iniciativas somadas, mais a expansão da unidade leonense, devem ser conduzidas entre 2022 e 2024 e significarão um investimento de quase R$ 60 milhões.
Salamoni comenta que outra oportunidade que está sendo avaliada é a purificação do biogás para a produção do biometano (combustível que pode substituir o gás natural fóssil, apresentando um menor impacto ambiental). O superintendente técnico da CRVR/Biotérmica detalhou essas ações no evento Cenários Renováveis – Fomentos às Bioenergias, promovido pelo Sindienergia-RS e pela Sergs. Outro participante do encontro foi o associado do Sindienergia-RS e diretor da Enerbio, Luiz Antonio Leão.
Na ocasião, o dirigente informou que o Brasil conta atualmente com 635 usinas de biomassa (21 delas no Rio Grande do Sul) que somam uma capacidade instalada de 18,5 mil MW, sendo que cerca de 7 mil MW dessa potência total está localizada em São Paulo e é produzida através da cana-de-açúcar. Entre os requisitos principais para implementar uma térmica abastecida com biomassa, Leão cita a presença de combustível não muito distante da unidade, a disponibilidade de água (para produzir o vapor que irá viabilizar a geração da energia através da movimentação da turbina) e a conexão à rede elétrica. “Outro desafio é ter um contrato de fornecimento do combustível por longo período”, aponta o diretor da Enerbio.
Leão cita como exemplo de projeto já em operação a usina de São Sepé, com 8 MW de potência instalada, que funciona há cerca de três anos. A unidade, que absorveu um investimento de R$ 48 milhões, consome cerca de 70 mil toneladas de casca de arroz por ano. Já a coordenadora do Comitê Socioambiental do Sindienergia-RS, Juliana Pretto Stangherlin, destaca que as bioenergias são soluções para problemas ambientais e sociais, resolvendo a questão do encaminhamento de diversos resíduos, transformando-os em ativos econômicos. Ela ressalta que, devido à relevância do assunto, é importante o Rio Grande do Sul atualizar seu atlas de biomassa.
O presidente do Sindienergia-RS, Guilherme Sari, concorda que é fundamental tratar cada vez mais do conceito das bioenergias. Ele frisa que o Rio Grande do Sul vem se preparando para esse novo momento do setor, com o aprimoramento das condições de conexão de energia, o que abre a perspectiva de que importantes investimentos nessas fontes de energia sejam confirmados no Estado. O dirigente chama a atenção ainda quanto à descentralização desse tipo de geração. “E um ponto fundamental é a relação (da produção de energia) com o agronegócio”, argumenta Sari.
Para o engenheiro ambiental Tiago Nascimento Silva, da Clean Energy e diretor de bioenergias do Sindienergia-RS, o fato da COP 26 ter sido realizada em novembro deste ano acarreta um momento crucial para colocar em discussão o tópico das energias renováveis. Ele salienta que há oportunidades a serem trabalhadas no mercado de carbono, devido às bioenergias reduzirem a geração de gases de efeito estufa.
O novo marco do gás no Brasil, aponta Silva, também pode contribuir para o desenvolvimento de novos empreendimentos na área de biogás, já que prevê uma maior abertura desse segmento. Waner Labigalini, da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (Abren), acrescenta que é possível realizar um processo de liquefação do biogás para levar o combustível até o ponto de consumo, fazendo o mesmo trabalho de um gasoduto. “É um cenário promissor em que muitas empresas estão buscando alternativas para escoar o biogás”, argumenta.
Labigalini salienta que a destinação correta de resíduos sólidos urbanos é um dos principais problemas no Brasil, sendo que é pouca a valorização desses recursos. Ele comenta que em 2018 foram geradas 79 milhões de toneladas de resíduos no País (sendo 92% do total coletado). A geração média de resíduo sólido urbano naquela ocasião foi de 380 quilos por pessoa. Na época, 1.227 municípios brasileiros contavam com coleta seletiva.
Sobre a evolução da destinação dos resíduos, o representante da Abren recorda que o leilão promovido no final de setembro pelo governo federal contratou pela primeira vez energia produzida a partir de resíduos sólidos urbanos. A usina paulista URE Barueri, que vendeu sua geração no certame, terá potência de 20 MW e capacidade de processar até 825 toneladas de lixo por dia.
No Rio Grande do Sul, a geração de energia térmica é uma das soluções encontradas pela Santa Casa de Porto Alegre e pela startup gaúcha Bumerangue Tecnologias Ambientais para dar destinação adequada a resíduos hospitalares. Arildo Falcade Junior, representante da Bumerangue, explica que o processo consiste na separação dos rejeitos que não têm como passar por reciclagem mecânica e a descontaminação desses materiais para serem triturados e virarem uma espécie de briquetes, chamados de “células de energia”, que servirão como combustível. Ele enfatiza que muitos desses resíduos possuem componentes plásticos, que têm um poder calorífero muito grande. Bruna Trolli Vieira, da Santa Casa, complementa que o hospital busca encontrar opções para alcançar a sustentabilidade econômica, social e ambiental.
Já o presidente da Associação Gaúcha de Empresas Florestais (Ageflor), Paulo César Azevedo, reforça que o setor florestal tem uma ampla vocação para a geração de energia elétrica. O dirigente informa que o Rio Grande do Sul conta hoje com aproximadamente 1,1 milhão de hectares de florestas plantadas, sendo 700 mil hectares de eucaliptos, cerca de 300 mil de pinus e 100 mil de acácia “E há ainda um enorme potencial de crescimento nessa área”, reitera o presidente da Ageflor


Texto: Sindienergia-RS