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Renove os hábitos, renove as energias

Rio Grande do Sul busca autossuficiência energética

O fato de o sistema elétrico nacional ser interligado permite que as regiões do País enviem energia umas para as outras para atender ao consumo da população brasileira. No entanto, os estados que contam com mais geração perto do centro de carga verificam vantagens como maior segurança no abastecimento, geração de emprego e renda locais e diminuição das perdas e investimentos no sistema de transmissão. Com foco nesses benefícios, o poder público e empreendedores gaúchos defendem para o Rio Grande do Sul a meta da autossuficiência energética.
O presidente do Sindicato da Indústria de Energias Renováveis do Rio Grande do Sul (Sindienergia-RS), Guilherme Sari, lembra que há muitos anos se fala dessa possibilidade e do Estado virar até mesmo um “exportador” desse insumo para outras partes do Brasil. “Hoje, o nosso alinhamento de entidade é pela autossuficiência”, frisa o dirigente. Ele argumenta que se perdeu tempo para tentar alcançar esse objetivo devido à necessidade de relicitar, na década passada, várias obras de transmissão no Rio Grande do Sul que seriam feitas pela Eletrosul, mas que a empresa não conseguiu ir adiante com as iniciativas. Porém, agora, com essa situação já resolvida, Sari comenta que o Rio Grande do Sul apresenta condições para escoar a energia de novas usinas e com isso atrair mais empreendimentos. “Voltamos ao radar dos investidores”, comemora.
Conforme o presidente do Sindienergia-RS, até 2026 a expectativa é que seja acrescida na matriz elétrica gaúcha uma potência de aproximadamente 2 mil MW, envolvendo todas as fontes de energia e alavancada fundamentalmente pela geração eólica. Ele adianta que esse patamar pode aumentar ainda mais, confirmando-se a implantação da termelétrica a gás natural liquefeito (GNL) que o grupo espanhol Cobra pretende construir no município de Rio Grande.
O número estimado para atingir a autossuficiência no Estado é um acréscimo de geração em torno de 3 mil MW, o que Sari calcula que pode ser alcançado por volta 2028. Esse incremento de potência também significaria uma movimentação de cerca de R$ 20 bilhões em novos investimentos. Atualmente, em torno de um terço da energia consumida pelos gaúchos é oriunda de fora do Estado.
O diretor do departamento de energia da Secretaria estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), Eberson Silveira, concorda que o tema da autossuficiência energética é importante para o Rio Grande do Sul. “E para alcançá-la temos um enorme potencial dentro das fontes renováveis”, destaca. Silveira detalha que o Estado possui hoje, contando a geração distribuída (em que o consumidor produz sua própria energia), cerca de 9,9 mil MW de capacidade instalada. Desse total, 46,6% é proveniente de hidrelétricas, 22,2% de termelétricas (entre fósseis e de biomassa), 18,5% de complexos eólicos e 12,7% de usinas solares. “É uma capacidade instalada de 81,5% em fontes renováveis na matriz elétrica gaúcha, somos privilegiados”, reitera.
De acordo com o diretor da Sema, somente em empreendimentos eólicos onshore (em terra) há 15,5 mil MW tramitando, em alguma fase, dentro da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). São 61 iniciativas, que representam R$ 93 bilhões em investimentos. Já as ações offshore (nas águas), a serem desenvolvidas na costa gaúcha, somam 44,7 mil MW, distribuídos por 17 projetos. Na área da hidreletricidade, abrangendo usinas de todos os portes, são 336 MW em análise na Fepam, envolvendo 75 unidades que significam um aporte de R$ 2,5 bilhões.
Além da confirmação desses projetos, uma ferramenta que pode ajudar o Rio Grande do Sul a diminuir a sua dependência energética de outras regiões é a instituição e regulamentação do conceito do sinal locacional, que leva em consideração as despesas de transmissão implicadas com o deslocamento da energia de gerações muito afastadas dos pontos onde se encontram os consumos mais altos. O secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Joel Maraschin, acredita que essa seja outra pauta relevante para os gaúchos. “Porque se tivermos mais energia aqui, resolvemos o problema em casa, digamos assim”, pondera.
Ele sustenta que o tópico energia é a “espinha dorsal” para o crescimento do Rio Grande do Sul, especialmente se tratando das fontes renováveis. “É obrigação tratar disso, porque há uma pressão mundial pela descarbonização e compromissos de ESG (Environment, Social and Governance)”, destaca o secretário.
Maraschin reforça que a atração de novos investimentos passa pela questão de se ter capacidade energética. “O Estado precisa trabalhar políticas públicas, juntamente com associações regionais e de municípios, e começar a fazer suas análises, porque energia é desenvolvimento. Se o Rio Grande do Sul não se tornar autossuficiente, não ampliar a sua capacidade elétrica, vamos começar a ter problemas na parte industrial”, adverte o dirigente.
Outro ponto salientado pelo secretário é que cada vez fica mais forte a tendência dos veículos elétricos e quanto mais automóveis dessa natureza estiverem rodando nas estradas, maior será a demanda de energia para atender a esse mercado. “O planejamento do novo momento energético para o Rio Grande do Sul é essencial para podermos falar de futuro, de geração de empregos, de renda, atração de investimentos, promoção comercial, entre outros”, diz Maraschin. Ele recorda ainda que no ano passado houve uma crise hídrica que quase ocasionou um racionamento elétrico no País, obrigando o acionamento das termelétricas que, normalmente, são uma geração mais cara.

 

Texto: Sindienergia-RS